Era muito nova quando me apercebi de que não tinha queda para ser feliz. Embora fosse ainda uma miúda, já me apercebera de que a felicidade não dependia tanto dos factores externos como nós pensamos. Afinal, mesmo aqueles a quem aparentemente nada faltava, não eram necessariamente felizes. Depois de alguma investigação concluí assim que, se não era feliz, era simplesmente por falta de jeito.
Não foi uma constatação muito agradável. Sobretudo quando ainda se tem a vida toda pela frente e muitas probabilidades de não a conseguir viver da melhor forma.
Penso que foi sobretudo a consciência aguda da impermanência e do facto de que nada era fiável ou duradouro que esteve na origem da minha crise existencial entre os 16 e os 19 anos e da minha procura ansiosa de algo que fizesse sentido. Recusava-me a aceitar que a vida pudesse ser apenas uma ladainha de dias e noites, uma sobrevivência morna, uma sucessão de imponderáveis à espera da única certeza: a morte. E que tudo o que fazemos fosse apenas uma forma, mais ou menos disfarçada, de passar o tempo…
Nasci em Lisboa, na época sombriada ditadura. Portugal estava claramente duas décadas atrás do resto da Europa, onde a juventude vivia a revolução hippie. E embora o desejo de ir participar naquela colorida efervescência que iria mudar o mundo (achávamos nós), a verdade é que algo me prendia sempre a Portugal.
Tinha 19 anos e ainda era menor (naquela altura a maioridade alcançava-se aos 21 – lembram-se?). Por isso tive de mentir à minha mãe para poder deixar Portugal e juntar-me a um amigo que já tinha ido viver para a Bélgica. Foi lá que, em Novembro de 1973, me cruzei com o budismo tibetano na pessoa de Lama Kunzang.
Comecei por ouvir algumas palestras. E tudo fazia tanto sentido, tudo abria tais horizontes, nunca dantes sonhados, que aderi com aquele entusiasmo próprio de quem é novo e ainda não acumulou receios. Não havia nada mais importante na vida, para mim, do que galgar esses espaços que se abriam e ir à descoberta da plenitude interior que se adivinhava por entre as palavras que ouvia. Tornei-me budista em 1974, numa cerimónia mágica.
É perfeitamente possível ser-se budista e não se ter um mestre. Eu, no entanto, tive a sorte de, não somente ter um mestre, mas ter com ele uma relação muito próxima e de grande confiança. Como era muito nova quando o conheci, os seus ensinamentos penetraram no mais profundo do meu ser e a minha gratidão por tudo o que ele me ensinou é infindável.
Contrariamente ao que muitos pensam, um mestre não tem de ser alguém famoso, reconhecido pela hierarquia oficial, cheio de títulos e coberto de brocados para nos abrir as portas do “Dharma” – os ensinamentos do Buda. Essa é a força da linhagem: qualquer mestre tem, também ele, um mestre, e esse outro e assim por diante. Quando somos aceites por um, ficamos ligados a todos eles.
Casei em 1974 com o amigo português que fora para a Bélgica antes de mim e que também seguiu a mesma via. Somos ainda hoje os melhores amigos do mundo.
Entre 1974 e 1980 vivi seis anos num centro budista nos pré-Alpes, no Sul de França e foi aí que, em Dezembro de 1976, nasceu a minha filha.
Voltei para Bruxelas por mais quatro e, finalmente, entre 1984 e 1988 fiz o tradicional retiro de três anos na Dordogne, França, sob a direcção espiritual de Dudjom Rinpotché, Dilgo Khyentsé Rinpotché dois dos maiores Lamas contemporâneos (entretanto já falecidos), e Tsetrul Pema Wangyal Rinpotché. Fazer esse retiro foi um dos grandes marcos da minha vida.
O retiro de três anos (três meses e três dias) é um retiro de grupo centrado na prática da meditação e no estudo dos textos. Com uma média de 11 horas diárias de meditação e orações, é uma oportunidade única para aprendermos a conhecer o nosso espírito e aplicar os métodos de transformação que o budismo oferece.
Tive a sorte de receber ensinamentos e iniciações de muitos Lamas, de fazer algumas viagens ao Oriente (para assistir a eventos realmente excepcionais) e duas peregrinações aos lugares sagrados do budismo na Índia, Nepal e Butão.
Em 1992 comecei a ensinar o budismo, a pedido do meu mestre, e essa tem sido a minha principal actividade desde então.
Voltei para Portugal em 1996 onde tenho vivido, apesar de continuar a viajar bastante. Em 1999 tomei votos laicos com Trulshik Rinpoche.
Estou ligada à Ogyen Kunzang Chöling, escola do budismo tibetano Nyingma, com presença em Portugal desde 1979 e, mais recentemente, à Bodhicharya International, ligada a Ringu Tulku Rinpoche.
Quando revejo a minha vida, considero-me uma pessoa muito afortunada e sei o quanto devo aos mestres que tiveram a bondade de me ensinar.