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A Dignidade e o Sentido da Vida é um livro sobre os cuidados no final de vida. Este texto resulta do encontro entre a Drª Isabel Neto, médica especializada em cuidados paliativos, Helena-Hermine Aitken, formadora no campo do acompanhamento a terminais, e eu. O livro surgiu no âmbito da associação AMARA, da qual sou a actual presidente. Eis um excerto da introdução:

O sofrimento e a morte são talvez os últimos grandes tabus da nossa sociedade vocacionada para o bem-estar e o prazer. E, como sempre, tudo o que é objecto de tabu é mal vivido. Nunca uma sociedade esteve tão mal preparada para lidar com o sofrimento e com a morte, duas das grandes e inevitáveis realidades da vida.Foi talvez uma predisposição pessoal aliada à minha formação budista que me levou a interessar-me pela questão. A experiência de acompanhar alguns amigos nos seus últimos momentos de vida confortou-me na certeza de que é possível partir com serenidade, rodeado de sentimentos positivos e em boas condições. Mas a realidade da maioria das pessoas nem sempre é essa.O pensamento da partida é-nos tão desconfortável que fazemos tudo para evitá-lo. Quando nos confrontamos com a morte de entes queridos negamo-la até ao fim e deixamos que eles partam sem termos podido partilhar a sua dor, a sua revolta e, por fim, a sua aceitação e a sua libertação. Ao pretendermos poupar-lhes sofrimento, mantemos à sua roda uma conspiração de silêncio que os isola e amordaça. E quando, por fim, se afastam do cais vemo-los partir sem termos pronunciado as palavras que talvez quisessem ouvir, aquelas que teriam aliviado a dor e confortado o coração. Ficam-nos as saudades, agravadas pela frustração de não termos sabido o que fazer e a dúvida quanto à justeza das nossas opções.Esta inútil conspiração priva-nos de uma parte importante da nossa vida. A nossa sociedade tem de aprender que esses momentos, embora dolorosos, são importantes e preciosos. O balanço que fazemos, as lições que colhemos e o modo como concluímos todos processos e relações que começámos são valiosos e essenciais e, de certa forma, fazem parte do nosso contributo como seres humanos. Privarmo-nos deles priva-nos da oportunidade de descobrirmos que é possível transformar e transcender o sofrimento até um ponto que nos parece impossível hoje.(...) Nos últimos anos as pessoas que têm lidado com doentes terminais têm constatado que os principais motivos dos pedidos de eutanásia se prendem com o sofrimento físico e com a perda da dignidade e do sentido da vida. É essa a razão de ser de toda uma abordagem que inúmeros médicos, profissionais de saúde e voluntários têm desenvolvido nos últimos anos no âmbito dos cuidados paliativos e é também o fio condutor deste pequeno livro escrito a três vozes. Ele pretende transmitir a certeza de que é possível ajudarmo-nos uns aos outros a manter – e, quem sabe sob alguns aspectos, a melhorar – a qualidade de vida, a dignidade e o sentido da nossa existência até ao fim.
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Texto da contracapa

A luta pela qualificação dos cuidados paliativos e pela respectiva integração no sistema de saúde não tem sido fácil nem pacífica. Radica, porém, no reconhecimento da própria dignidade de cada pessoa e no seu inalienável direito a viver a vida com qualidade e sem sofrimento até ao fim.

Como escreveu a Dra. Isabel Galriça Neto, "A questão da doença avançada, terminal e da morte é um problema universal, tão universal como os cuidados pré-natais e na infância." Ou, como dizia o Dr. Eduardo Bruera, Presidente da Associação Internacional de Paliação, "todos nascemos terminalmente enfermos".

O envelhecimento crescente da população e o aumento preocupante das patologias prolongadas, incuráveis e progressivas, impõem o acolhimento dos cuidados paliativos como um direito do doente enquanto pessoa e não apenas uma faculdade lateral do sistema de saúde.

Maria José Ritta