Cada um de nós é responsável pela sua vida: este é um ponto essencial que o Budismo me ensinou. E seja influência sua ou simples moda, a verdade é que tenho ouvido cada vez mais pessoas fazerem esta afirmação.

Sem dúvida o ponto em que nos encontramos resulta das inúmeras escolhas que fomos fazendo, algumas – para não dizer muitas delas – de forma insconsciente. Pessoas, livros, encontros e acontecimentos aparentemente aleatórios contribuiram, por vezes de forma determinante, para nos trazer para onde estamos hoje.

A cada instante, numa simples escolha de itinerário, estamos a expor-nos a certos acontecimentos e a evitar outros tantos e esta escolha pode por vezes fazer a diferença entre a vida e a morte. Vista por este prisma, a vida revela-se uma infinita teia de probabilidades e de processos causais e poderia tornar-se verdadeiramente assustadora se estes fossem aleatórios.

Mas não são. O Budismo, e como ele outras tradições espirituais e não só, falam da importância da ética. A ética é um elemento fundamental para encontrarmos alguma ordem neste aparente caos, explicando as ações – ou escolhas – que devemos evitar e as que devemos cultivar em virtude das consequências que acarretam e das situações que geram. Se seguirmos as indicações estaremos, de certa forma, protegidos.

Digo “de certa forma” porque há processos que, por serem mais globais – sociais, comunitários, ou planetários, por exemplo – ou mais antigos – e resultarem de escolhas anteriores – escapam ao crivo dessa proteção. É por essa razão que, “fazermos tudo certo” não constitui necessariamente uma garantia de que tudo irá sempre “correr bem”.

Por isso é importante entendermos que, mais ainda do que os acontecimentos, é a nossa atitude perante eles que define a nossa vida. As nossas escolhas determinam, em parte, aquilo a que nos expomos e aquilo de que nos afastamos, mas a nossa atitude perante os acontecimentos é muito mais determinante. Obviamente, certas escolhas colocam-nos em situações melhores, outras em situações piores. É um facto. Mas, em definitivo, é sempre possível melhorar, corrigir e mesmo tirar partido de qualquer situação se tivermos uma boa atitude.

Sim, a nossa vida é criada por nós porque temos liberdade para reagirmos de forma positiva aos desafios. E é por isso que a podemos mudar neste preciso instante, sem termos necessariamente de mandar tudo às urtigas, simplesmente decidindo – do fundo do coração – mudar de atitude.

Está online um coaching gratuito para o ajudar a mudar de atitude. Siga este link e subscreva enviando o seu email. Se está sinceramente convencido(a) da sua responsabilidade na criação da sua vida, inscreva-se!

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Escrevo
Sobre as tuas mãos abertas
Hoje cheias de força para agarrar o mundo
Escrevo
Sobre os teus olhos bons
Pousados sobre mim
Como dois pássaros tristes
Sobre o teu corpo
Como se fosse árvore a crescer
Escrevo
Definitivamente
Escrevo para ti
Com palavras mortas – porque todas morrem –
Com gestos que sorriem
Com espanto
Com amor
Porque hoje estou cheia de coisas
Que te quero dar
Em silêncio
Porque hoje não faço palavras
Nem risco frases –
O meu corpo cresceu
Cabe tudo cá dentro
Os outros
As ruínas deles
Os teus olhos tão grandes
Especialmente tu
Que ouves
Amas
E ris
Como uma criança
Uma grande criança de caracóis
Tu que choras
E as tuas lágrimas douradas
Também cabem dentro de mim
Oiço-as cair e são chuva
Sinto-as por mim abaixo como uma dor
E choro contigo
Anda
Não sei o que encontrei
Mas quero mostrar-te isso
Vou transfigurar as coisas para ti
Vem
Eu estou cheia de força
Tudo cá dentro anda em todos os sentidos
Como a Terra
Tu sentirias em mim se me pudesses ver
Mas não estás
E é por isso que eu escrevo para ti
A felicidade
Neste papel deserto.

Lisboa – 30/4/72
(quase a chorar)

Desenterrei este poema do meu baú – tem 40 anos! Foi dos raríssimos que sobreviveram às múltiplas mudanças de casa e de país, ao longo dos tempos. Conheço bem o sentimento… Uma parte de mim já nada tem a ver com a pessoa que o escreveu. Mas o essencial, a Presença Enternecida que jorra das palavras, essa é a mesma. Porque não tem idade, nem tempo… vive no momento presente que flui…

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Não sei se é cultural ou estrutural mas quando alguém pergunta como vamos, em Portugal responde-se “Vai-se andando”. Depois de muitos anos a viver em países francófonos, quando voltei para cá, fui apanhada de surpresa pela expressão. Quando alguém me respondia “vai-se andando”, ficava com a sensação de que a pessoa estava com um problema, uma doença grave, enfim qualquer coisa de monta.

O que se passa? Qual é o problema – perguntava eu. A surpresa estampava-se no rosto do interlocutor. Nada de especial, vamos andando.

O irmão mais velho do “vai-se andando” é o “estou pr’áqui” – às vezes completado por “sozinho(a) e abandonado(a)” – que é utilizado por uma faixa etária mais avançada, mais desanimada com a vida e em plena crise de chantagem emocional. Mas, de toda a forma, ambas as fórmulas exprimem o portuguezíssimo pesaroso fardo de viver.

Já não nos basta a tristeza do fado, que posta em poesia arranca lágrimas às pedras da calçada – agora, pelos vistos, no mundo inteiro.* Não somos só peritos em desgraças sentimentais, ciúmes, traições e amores não correspondidos, somos mesmo os especialistas da morosidade quotidiana, do vai-se andando e do estou pr’áqui.

Felizmente vivemos num país cheio de sol, de brandos costumes e poupado pelas calamidades naturais, onde até as revoluções se fazem com cravos. Se tivéssemos apenas 4h de lusco-fusco por dia no pino do Inverno, já a raça se teria extinto, morta de depressão.

A sério: o porquê desta morosidade permanece um dos mistérios do universo. Parece que estar alegre, feliz e contente, sem queixas sobre o tempo, a política, os preços ou o futebol é anti-constitucional em Portugal.

A negatividade é verdadeiramente uma poluição. O mesmo efeito que a poluição sonora e ambiental tem ao nível exterior, tem a negatividade ao nível interior. Focarmo-nos nos aspetos desagradáveis vida, queixarmo-nos em permanência de tudo e mais alguma coisa e cultivarmos a falta de entusiasmo põe o nosso estado de Presença em média-luz e gera à nossa volta um campo electromagnético acabrunhado.

Por isso, quando anda por aí cabisbaixo, lembre-se disto e levante a cabeça. Sinta o sol na sua pele – mesmo no Inverno, caramba! –, inspire o ar Lusitano e coma um pastel de nata. Bote um sorriso na cara e repita interiormente as inúmeras e essenciais razões que tem para estar grato na vida. Que tal reinventar um Portugal mais risonho?

* Com isto não pensem que não gosto de fado… – ou não fosse tuga, né?

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Pensei durante muito tempo que o sofrimento era uma varinha mágica que transformava os egoístas em altruístas, os imaturos em adultos e as pessoas em verdadeiros seres humanos. Infelizmente não é assim tão simples.

Depois de grandes dificuldades e desafios há de facto quem se transforme por completo e se torne melhor pessoa. Há registos de sobreviventes dos campos de concentração nazi para quem as provações desumanas por que passaram foram uma verdadeira alquimia. E exemplos (felizmente) numerosos de pessoas que enfrentam a extrema adversidade e são uma inspiração para os outros.

No entanto, o inverso também é verdade. Pessoas há – e muitas – que perante dificuldades bem menores, se tornam vingativas, amargas e ressabiadas, tornando-se um mal para si e para os outros; que terminam a vida sozinhas, rejeitando a humanidade, revoltadas e cheias de ódio.

O que nos leva a pensar qual será a linha de demarcação entre uns e outros? Qual o ingrediente necessário para que esta alquimia funcione?

Tudo começa quando algo desagradável ou doloroso acontece. Observe-se: quando, numa simples discussão, sente a necessidade de ripostar, é porque o seu ego se sente diminuído e se tenta recompor. Fá-lo atacando de volta, desculpando-se ou acusando outra pessoa. Ou seja, reforçando a parede interna.

Se, quando formos atacados, não deixarmos que o ego se recomponha, se aceitarmos o que ouvimos sem culpar ninguém, sem arranjar desculpas e sem ripostar, o que acontece? O ego emagrece. E quando a dieta é severa, a perda de peso é proporcional.

Não se preocupe se aquilo que lhe acontece é justo ou injusto – quem decide de toda a forma? – aceite apenas. Separadamente, em outro momento, poderá lidar com esse aspeto e corrigir o que necessita de ser corrigido. No instante em que recebe a batata quente, contente-se em segurá-la.

Se nos treinarmos assim no quotidiano, há fortes probabilidades de que nos tornemos pessoas melhores depois de cada discussão, de cada contratempo, de cada sofrimento. Estaremos prontos para essa alquimia,   quer tenhamos de enfrentar contratempos banais ou sofrimentos maiores.  Mesmo que não nos tornemos heróis nacionais ou Nobel da Paz, seremos pessoas cuja presença no mundo é uma benesse. Nada mau!

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Entre as muitas coisas de que o Sr. Ego vive está o queixume. Queixar-se é, para ele, uma forma de resistir ao momento presente, de dar um ar da sua graça e constantemente reafirmar a sua existência. Simplesmente aceitar as coisas como elas são é um suicídio. Por isso, para ele, resistir é uma questão de sobrevivência.

Se nos observarmos com atenção podemos sentir uma espécie de parede dentro de nós contra a qual tudo embate. Esta resistência interna traduz-se por uma contrariedade de fundo – há sempre qualquer coisa a mais ou a menos na nossa vida –, uma impaciência que degenera em irritação na primeira oportunidade ou um sentimento de “estou farto disto” – sem que saibamos exactamente de quê. Todas estas manifestações são uma transpiração egoika (agora escrito com k para rimar com troika).

Aceitar o que é, não apenas os acontecimentos importantes da nossa vida mas todas as pequenas coisas de cada momento, tem um qualquer coisa de abandono que apavora o ego. Na sua tosca esperteza ele sabe que render-se e deixar de resistir o torna transparente e que isso é meio caminho andado para o seu desaparecimento total.

Deixar que o momento presente ganhe toda a sua importância e deixe de ser o parente pobre da nossa experiência requer treino e abertura. Estamos viciados em achar que tudo o que de importante se passa na nossa vida ou já aconteceu – ontem, o ano passado ou na nossa infância – ou ainda está por acontecer – logo à noite, amanhã ou no próximo Verão. Este momento, aqui e agora, quando muito é um meio para nos levar ao momento futuro – que assim que for presente passa a deixar de ser importante.

Porém ele é a única realidade e tudo o resto é mera ficção. Se quer deixar de viver na sua cabeça, de andar perdido nos seus pesadelos e sofrer sem razão, vai ter de se abrir e despertar para a intensa energia do momento presente.

Sente-se. Respire. Observe o seu muro interior de onde jorram permanentes lamentações. Escave-lhe uma porta e abra-a de par em par. Deixe-se atravessar pelos momentos e as experiências em vez de lhes resistir. Aceite. Sinta um vento de liberdade afagar-lhe o peito por dentro e descubra uma alegria que é quase uma exultação. Abandone-se, dance com a vida e a vida dançará consigo. Está tudo em aberto!

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De vez em quando uma batata quente vem parar ao nosso colo. Instintivamente, procuramos de imediato a quem podemos passá-la; o mesmo faz o próximo e o outro a seguir. Às vezes penso que muito do sofrimento do samsara é uma batata quente que, desde tempos imemoriais, anda de mão em mão sem nunca arrefecer.

O molestado, molesta; o fraco, assim que está em posição de força, abusa; e, de pais para filhos, de fortes para fracos, de ricos para pobres, a história da humanidade é uma batata escaldante que, através das gerações, das classes sociais, das revoluções e outras convulsões, não cessa de passar de mão em mão.

Se queremos fazer deste mundo um sítio melhor, podíamos começar por mudar esta forma de reagir. Convenhamos: é preciso alguma coragem para reter a batata quente enquanto esperamos que arrefeça. Para arcar com o impacto e não largar logo o nosso grito infantil: “não fui eu, foi ele” – um pouco mais polido e disfarçado é certo, mas essencialmente igual ao de então.

Mas, se tivermos a coragem de o fazer, poderemos ficar surpreendidos com o resultado. Se ainda não nos chacinámos todos uns aos outros – sobre este maravilhoso planeta azul – é porque existem alguns “adultos” neste mundo que aceitam segurar batatas quentes por si e pelos outros. Não hesito em chamar-lhes Bodhisattvas (os heróis do altruísmo verdadeiro e saudável) porque sem eles o mundo seria ainda bem pior.

Na minha pequena experiência, segurar batatas quentes tem resultados espantosos, sobretudo a médio e longo prazo. Nas relações a dois, a três, a vinte; nos casais, nas famílias, nas equipas de trabalho e na sociedade em geral, um só “segurador de batatas quentes” transforma a sua vida e a de centenas de pessoas. Acontece também – e é bom que o saiba – que com o hábito, vamo-nos habituando e as batatas já não nos parecem tão quentes.

Sobretudo, não pense que quem segura a batata é um sacrificado. No momento inicial pode até parecer, mas se tiver a coragem de experimentar, vai ver que é o primeiro beneficiado.

Assim, quando uma batata quente, vinda dos confins do tempo sempre a rodar, aterra no seu colo e dali não sai, tem porventura a noção do sofrimento que evitou a quanta gente? Por favor, pense nisto.

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Se há coisa que o Sr. Ego detesta é sentir-se vulnerável. Vulnerável é o mesmo, para ele, do que fraco, exposto, passível de ser humilhado a qualquer momento. Ele que se abotoa de sobretudos desnecessários e armaduras enferrujadas e quer – sempre – ter razão e levar a melhor, não suporta abrir mão da sua parafernália e sentir aquele ponto sensível, quase doloroso, bem no centro do coração. Aquilo a que gosto de chamar de insustentável ternura.

Por causa dele procuramos calar a dor permanente de sermos humanos, saber-nos mortais e estarmos conscientes de que tudo passa. Por causa dele tentamos adormecer a ferida aberta do sofrimento alheio que, de toda a forma, consciente ou inconscientemente, sentimos como nosso. Por causa dele tememos para além do razoável não poder controlar tudo e todos para que nunca – por nunca ser – nos sintamos ameaçados ou frágeis. E depois fica tudo tão quieto, tão vazio, tão desprovido de sentido que, por causa dele, entramos em depressão.

Mas como sempre, embora hábil, o Sr. Ego prima pela estupidez (chamemos-lhe “falta de visão” para não o achincalhar mais). Porque todos os seus esforços para eliminar o desconforto resultam numa insensibilização generalizada. À força de não querer arriscar, de não querer a mais pequena ponta de dor, ficamos com o coração dormente e deixamos, sim, de sentir o “mau” mas também o “bom”. Pois é: desengane-se por favor, pois quem conseguiu eliminar a dor, deixou de sentir tudo. É assim com muitos de nós: anestesiamo-nos em vez de viver.

Claro que nos anestesiamos com álcool, drogas e medicamentos. Com televisão e outras formas diversas de alienação – há-as para todas as bolsas. Mas anestesiamo-nos ainda com muitas formas mais subtis e fundamentais tais como não nos abrirmos, não encararmos a realidade e vivermos encolhidos no fundo do medo de sermos magoados.

E se formos? Não fará parte da vida alguma dor? Não será ela o cimento da nossa ligação aos outros? Dizem que a primeira respiração de um recém-nascido lhe queima os pulmões. Deveria ele recusar-se a respirar?

Somos frágeis. Somos vulneráveis. Por isso só temos duas alternativas: ou recusamos a nossa natureza e decidimos ser plásticos e inquebráveis, anestesiados e artificiais ou aceitamos a vulnerabilidade do coração humano, abrimos a porta à insustentável ternura e sentimos ao vivo e a cores a imensa energia inebriante de que é feito o mundo. Caramba!

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Ora então bom ano a todos e nada de pânico com as notícias de crise que a comunicação tem um perverso prazer em nos transmitir. Não digo que não haja pessoas em dificuldade – claro que as há – mas daí até instalar o país num estado de coitadite nacional vai um largo passo.

Já vivi muito confortavelmente e também de forma muito simples – “primitiva” até para alguns – e descobri que se pode ser muito feliz, e também muito infeliz, das duas maneiras. O conforto material tem muito menos a ver do que geralmente pensamos. A felicidade é sobretudo de uma capacidade e uma atitude.

Estudos recentes – deixem-me lá pôr o carimbo científico para a credibilidade – demonstram que o grau de felicidade ou de satisfação habitual de um indivíduo acaba por voltar mesmo após acontecimentos muito bons ou muito maus. Por isso, a menos que transformemos a nossa forma de apreciar a vida, mais dinheiro ou menos dinheiro poderá não fazer grande diferença.

Quanto mais permanecermos no momento presente mais a beleza da vida nos encantará. O que estraga o prazer de cada momento é, muitas vezes, a comparação com momentos anteriores, a projeção de momentos futuros. É possível desfrutar, a custo zero, do ar matinal, do fulgor do outono, da prata cintilante do rio, do simples prazer de caminhar e estar vivo. Felizmente nem a Troika, nem absolutamente ninguém, nos pode impedir de nos extasiarmos com o perfume da maresia, nem de viver de forma plena cada instante.

O IVA da meditação não subiu e continua a custar zero cêntimos sentar-se para mergulhar numa quietude que, ao contrário do que às vezes se pensa, não é uma espécie de imobilismo inerte mas um entusiasmo vibrante e apaixonado, completamente permeado de ternura.

Se a nossa presença no aqui e agora ainda é intermitente e hesitante – certamente o caso da grande maioria de nós – é ainda muito mais importante termos um objetivo de vida e, de preferência, que não seja apenas ter casa, carro ou estuto social. Em caso de crise – seja ela financeira ou humana – os objetivos materiais são sempre uma grande desilusão.

Muito mais gratificante é a certeza de que o que fazemos na vida é útil aos outros e mais ainda se o fizermos de forma desinteressada. A felicidade que retiramos de fazermos algo por alguém não tem preço. Um sorriso, uma palavra doce, não custa um cêntimo e transmite o que há de mais valioso na existência.

A falência do sonho da opulência afinal pode não ser assim tão mau! Deixemos as troikas aos políticos e aproveitemos para rever as nossas prioridades e dar valor às coisas que mais contam e que, por natureza, são totalmente gratuitas. Aproveitar o momento presente, ser bondoso e sentir-se grato será sempre possível, com ou sem crise. Bom ano!

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Estamos em época natalícia e onde quer que estejamos é impossível escapar-lhe. No centro comercial, no supermercado, no elevador ou mesmo na sessão de acupuntura, levamos com o “Let it snow” com fundo de chocalhos. Por isso, e para não fugir à regra, antes de continuar a ler, por favor, ponha a tocar uma música de Natal. Obrigada.

Está a ver aquele saco enorme que o Pai Natal carrega ao ombro e que tem ar de pesar uma tonelada? Muito bem, hoje queria falar-lhe do saco que a maioria de nós carrega o ano inteiro – muito desnecessariamente.

Pior ainda: ao contrário do Pai Natal, no nosso saco, não estão prendas mas sim memórias de todas as coisinhas más (e também algumas boas) que nos aconteceram desde que nos lembramos de nós e até de muito antes. Esses embrulhos bafientos, a cheirar a mofo, são a coleção privada do ego, os álbuns que ele gosta de folhear, amorosamente acariciando cada página. “Aqui era eu pequenino, ao colo da tia Marta no dia em que ela me deixou cair!”; “Aqui tinha quinze anos – foi o meu primeiro desgosto de amor”; “Aqui estava tão infeliz!” – e vai tirando para fora cada embrulho, com a lágrima ao canto do olho.

De vez em quando, e esta época pode ser propícia, ele gosta de reafirmar quem é, de contabilizar as feridas e relembrar as vitórias e definir-se através de ambas. O ego não existe sem o passado – por isso é que ele o carrega com tanto desvelo.

Este somatório de pequenas e grandes mágoas, de traições, de vinganças e de desforras, é a pauta pela qual a maioria de nós cria o seu mundo, cuidadosamente delimitando o que será pelo que foi. Que falta de imaginação!

Será melhor dizer-lhe sem rodeios: ninguém quer saber das suas lamúrias – e, se encontrar um ouvido gratuito, desengane-se: na maioria das vezes estará simplesmente à espera da sua vez de falar… Por isso é que, os que têm meios, pagam à hora a pessoas especializadas para os escutarem.

Haverá alternativa? Claro que sim! Tente lembrar-se de que é o ego que carrega o saco e que a sua natureza de Buda, luminosa e transparente não precisa dele.

Quando no Budismo, no momento de tomar Refúgio – a pequena e simples cerimónia que marca a entrada na via budista – recebemos um novo nome é para simbolizar o começo de uma nova vida, a oportunidade sacudir os velhos trapos e recomeçar de novo. No fundo é como criar um novo perfil no facebook: de início poderá não ter amigos, nem álbuns, nem posts… Mas é por pouco tempo pois um fio condutor novo irá trazer-lhe amigos diferentes e ideias originais.

Para trás ficam o cheiro a mofo, as velhas quezílias e todos os embrulhos cansados que passaram anos a chocalhar dentro do saco. Vá lá, erga-se corajosamente agora mesmo e enfrente a liberdade luminosa sem passado!

Sacuda-se ó balha-me Deus!

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Um rei tinha um vizir muito sábio, cujo sentido de justiça era muito apreciado pelo povo. Muita gente o procurava para pedir conselhos que ele dava com bondade e bom-senso. Um, particularmente, era fatídico, fosse qual fosse a situação: “Lembre-se que pode ter sido para seu bem!”.

Um dia o rei teve um acidente e perdeu um dedo. Ficou extremamente infeliz com a situação e foi ver o seu vizir, amigo de longa data, confiante de obter ajuda. Indignado e triste com o sucedido, o rei contou ao vizir o acidente que tivera. O vizir escutou-o com bondade, disse-lhe algumas palavras de conforto e por fim acrescentou, como de costume: “Majestade, lembre-se de que pode ter sido para seu bem.”

Essa era a última coisa que o rei queria ouvir. “O quê?! Depois de te ter contado o acidente de que fui vítima, tu ousas dizer-me uma coisa dessas? Estás a zombar de mim, ou perdeste o juízo?” E a sua fúria foi tão grande que mandou prender o vizir.

O tempo passou e alguns meses depois o rei foi a uma caçada com os criados. Durante a caçada, o grupo foi atacado por uma tribo de canibais que mataram os criados e capturaram o rei. Levaram-no para a aldeia e começaram a preparar o ritual de oferenda aos deuses. Quando a água do caldeirão já estava a ferver, trouxeram o rei. Ao prepará-lo para o sacrifício, descobriram que lhe faltava um dedo. Como não estava completo, não servia para o ritual e foi libertado.

A caminho do palácio, o rei não cabia em si de contente. “O meu amigo vizir é que tinha razão! Como é sábio e bondoso! Estou tão arrependido por tê-lo mandado prender! Que injustiça! Tenho de ir vê-lo e pedir-lhe perdão quanto antes.”

Logo que pôde o rei foi à prisão, entrou na cela do vizir, pegou-lhe nas mãos e disse-lhe efusivamente: “Meu bom amigo, sinto-me tão arrependido por te ter mandado prender! O meu acto é tão condenável! Não sei se alguma vez me perdoarás. Nem tu sabes como tinhas razão naquilo que me disseste!” E contou-lhe a história.

O vizir escutou-o com bondade e no final disse: “Majestade, não se atormente, talvez tudo tenha sido para meu bem!” O rei não queria acreditar nos seus ouvidos. “O quê?! Como é que depois de tudo o que passaste e da injustiça de que foste alvo ainda consegues achar que tenha sido para teu bem?” “Majestade, repare bem: se eu não estivesse preso, teria ido à caçada consigo!”

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