De vez em quando uma batata quente vem parar ao nosso colo. Instintivamente, procuramos de imediato a quem podemos passá-la; o mesmo faz o próximo e o outro a seguir. Às vezes penso que muito do sofrimento do samsara é uma batata quente que, desde tempos imemoriais, anda de mão em mão sem nunca arrefecer.

O molestado, molesta; o fraco, assim que está em posição de força, abusa; e, de pais para filhos, de fortes para fracos, de ricos para pobres, a história da humanidade é uma batata escaldante que, através das gerações, das classes sociais, das revoluções e outras convulsões, não cessa de passar de mão em mão.

Se queremos fazer deste mundo um sítio melhor, podíamos começar por mudar esta forma de reagir. Convenhamos: é preciso alguma coragem para reter a batata quente enquanto esperamos que arrefeça. Para arcar com o impacto e não largar logo o nosso grito infantil: “não fui eu, foi ele” – um pouco mais polido e disfarçado é certo, mas essencialmente igual ao de então.

Mas, se tivermos a coragem de o fazer, poderemos ficar surpreendidos com o resultado. Se ainda não nos chacinámos todos uns aos outros – sobre este maravilhoso planeta azul – é porque existem alguns “adultos” neste mundo que aceitam segurar batatas quentes por si e pelos outros. Não hesito em chamar-lhes Bodhisattvas (os heróis do altruísmo verdadeiro e saudável) porque sem eles o mundo seria ainda bem pior.

Na minha pequena experiência, segurar batatas quentes tem resultados espantosos, sobretudo a médio e longo prazo. Nas relações a dois, a três, a vinte; nos casais, nas famílias, nas equipas de trabalho e na sociedade em geral, um só “segurador de batatas quentes” transforma a sua vida e a de centenas de pessoas. Acontece também – e é bom que o saiba – que com o hábito, vamo-nos habituando e as batatas já não nos parecem tão quentes.

Sobretudo, não pense que quem segura a batata é um sacrificado. No momento inicial pode até parecer, mas se tiver a coragem de experimentar, vai ver que é o primeiro beneficiado.

Assim, quando uma batata quente, vinda dos confins do tempo sempre a rodar, aterra no seu colo e dali não sai, tem porventura a noção do sofrimento que evitou a quanta gente? Por favor, pense nisto.

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Se há coisa que o Sr. Ego detesta é sentir-se vulnerável. Vulnerável é o mesmo, para ele, do que fraco, exposto, passível de ser humilhado a qualquer momento. Ele que se abotoa de sobretudos desnecessários e armaduras enferrujadas e quer – sempre – ter razão e levar a melhor, não suporta abrir mão da sua parafernália e sentir aquele ponto sensível, quase doloroso, bem no centro do coração. Aquilo a que gosto de chamar de insustentável ternura.

Por causa dele procuramos calar a dor permanente de sermos humanos, saber-nos mortais e estarmos conscientes de que tudo passa. Por causa dele tentamos adormecer a ferida aberta do sofrimento alheio que, de toda a forma, consciente ou inconscientemente, sentimos como nosso. Por causa dele tememos para além do razoável não poder controlar tudo e todos para que nunca – por nunca ser – nos sintamos ameaçados ou frágeis. E depois fica tudo tão quieto, tão vazio, tão desprovido de sentido que, por causa dele, entramos em depressão.

Mas como sempre, embora hábil, o Sr. Ego prima pela estupidez (chamemos-lhe “falta de visão” para não o achincalhar mais). Porque todos os seus esforços para eliminar o desconforto resultam numa insensibilização generalizada. À força de não querer arriscar, de não querer a mais pequena ponta de dor, ficamos com o coração dormente e deixamos, sim, de sentir o “mau” mas também o “bom”. Pois é: desengane-se por favor, pois quem conseguiu eliminar a dor, deixou de sentir tudo. É assim com muitos de nós: anestesiamo-nos em vez de viver.

Claro que nos anestesiamos com álcool, drogas e medicamentos. Com televisão e outras formas diversas de alienação – há-as para todas as bolsas. Mas anestesiamo-nos ainda com muitas formas mais subtis e fundamentais tais como não nos abrirmos, não encararmos a realidade e vivermos encolhidos no fundo do medo de sermos magoados.

E se formos? Não fará parte da vida alguma dor? Não será ela o cimento da nossa ligação aos outros? Dizem que a primeira respiração de um recém-nascido lhe queima os pulmões. Deveria ele recusar-se a respirar?

Somos frágeis. Somos vulneráveis. Por isso só temos duas alternativas: ou recusamos a nossa natureza e decidimos ser plásticos e inquebráveis, anestesiados e artificiais ou aceitamos a vulnerabilidade do coração humano, abrimos a porta à insustentável ternura e sentimos ao vivo e a cores a imensa energia inebriante de que é feito o mundo. Caramba!

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Ora então bom ano a todos e nada de pânico com as notícias de crise que a comunicação tem um perverso prazer em nos transmitir. Não digo que não haja pessoas em dificuldade – claro que as há – mas daí até instalar o país num estado de coitadite nacional vai um largo passo.

Já vivi muito confortavelmente e também de forma muito simples – “primitiva” até para alguns – e descobri que se pode ser muito feliz, e também muito infeliz, das duas maneiras. O conforto material tem muito menos a ver do que geralmente pensamos. A felicidade é sobretudo de uma capacidade e uma atitude.

Estudos recentes – deixem-me lá pôr o carimbo científico para a credibilidade – demonstram que o grau de felicidade ou de satisfação habitual de um indivíduo acaba por voltar mesmo após acontecimentos muito bons ou muito maus. Por isso, a menos que transformemos a nossa forma de apreciar a vida, mais dinheiro ou menos dinheiro poderá não fazer grande diferença.

Quanto mais permanecermos no momento presente mais a beleza da vida nos encantará. O que estraga o prazer de cada momento é, muitas vezes, a comparação com momentos anteriores, a projeção de momentos futuros. É possível desfrutar, a custo zero, do ar matinal, do fulgor do outono, da prata cintilante do rio, do simples prazer de caminhar e estar vivo. Felizmente nem a Troika, nem absolutamente ninguém, nos pode impedir de nos extasiarmos com o perfume da maresia, nem de viver de forma plena cada instante.

O IVA da meditação não subiu e continua a custar zero cêntimos sentar-se para mergulhar numa quietude que, ao contrário do que às vezes se pensa, não é uma espécie de imobilismo inerte mas um entusiasmo vibrante e apaixonado, completamente permeado de ternura.

Se a nossa presença no aqui e agora ainda é intermitente e hesitante – certamente o caso da grande maioria de nós – é ainda muito mais importante termos um objetivo de vida e, de preferência, que não seja apenas ter casa, carro ou estuto social. Em caso de crise – seja ela financeira ou humana – os objetivos materiais são sempre uma grande desilusão.

Muito mais gratificante é a certeza de que o que fazemos na vida é útil aos outros e mais ainda se o fizermos de forma desinteressada. A felicidade que retiramos de fazermos algo por alguém não tem preço. Um sorriso, uma palavra doce, não custa um cêntimo e transmite o que há de mais valioso na existência.

A falência do sonho da opulência afinal pode não ser assim tão mau! Deixemos as troikas aos políticos e aproveitemos para rever as nossas prioridades e dar valor às coisas que mais contam e que, por natureza, são totalmente gratuitas. Aproveitar o momento presente, ser bondoso e sentir-se grato será sempre possível, com ou sem crise. Bom ano!

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Estamos em época natalícia e onde quer que estejamos é impossível escapar-lhe. No centro comercial, no supermercado, no elevador ou mesmo na sessão de acupuntura, levamos com o “Let it snow” com fundo de chocalhos. Por isso, e para não fugir à regra, antes de continuar a ler, por favor, ponha a tocar uma música de Natal. Obrigada.

Está a ver aquele saco enorme que o Pai Natal carrega ao ombro e que tem ar de pesar uma tonelada? Muito bem, hoje queria falar-lhe do saco que a maioria de nós carrega o ano inteiro – muito desnecessariamente.

Pior ainda: ao contrário do Pai Natal, no nosso saco, não estão prendas mas sim memórias de todas as coisinhas más (e também algumas boas) que nos aconteceram desde que nos lembramos de nós e até de muito antes. Esses embrulhos bafientos, a cheirar a mofo, são a coleção privada do ego, os álbuns que ele gosta de folhear, amorosamente acariciando cada página. “Aqui era eu pequenino, ao colo da tia Marta no dia em que ela me deixou cair!”; “Aqui tinha quinze anos – foi o meu primeiro desgosto de amor”; “Aqui estava tão infeliz!” – e vai tirando para fora cada embrulho, com a lágrima ao canto do olho.

De vez em quando, e esta época pode ser propícia, ele gosta de reafirmar quem é, de contabilizar as feridas e relembrar as vitórias e definir-se através de ambas. O ego não existe sem o passado – por isso é que ele o carrega com tanto desvelo.

Este somatório de pequenas e grandes mágoas, de traições, de vinganças e de desforras, é a pauta pela qual a maioria de nós cria o seu mundo, cuidadosamente delimitando o que será pelo que foi. Que falta de imaginação!

Será melhor dizer-lhe sem rodeios: ninguém quer saber das suas lamúrias – e, se encontrar um ouvido gratuito, desengane-se: na maioria das vezes estará simplesmente à espera da sua vez de falar… Por isso é que, os que têm meios, pagam à hora a pessoas especializadas para os escutarem.

Haverá alternativa? Claro que sim! Tente lembrar-se de que é o ego que carrega o saco e que a sua natureza de Buda, luminosa e transparente não precisa dele.

Quando no Budismo, no momento de tomar Refúgio – a pequena e simples cerimónia que marca a entrada na via budista – recebemos um novo nome é para simbolizar o começo de uma nova vida, a oportunidade sacudir os velhos trapos e recomeçar de novo. No fundo é como criar um novo perfil no facebook: de início poderá não ter amigos, nem álbuns, nem posts… Mas é por pouco tempo pois um fio condutor novo irá trazer-lhe amigos diferentes e ideias originais.

Para trás ficam o cheiro a mofo, as velhas quezílias e todos os embrulhos cansados que passaram anos a chocalhar dentro do saco. Vá lá, erga-se corajosamente agora mesmo e enfrente a liberdade luminosa sem passado!

Sacuda-se ó balha-me Deus!

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Um rei tinha um vizir muito sábio, cujo sentido de justiça era muito apreciado pelo povo. Muita gente o procurava para pedir conselhos que ele dava com bondade e bom-senso. Um, particularmente, era fatídico, fosse qual fosse a situação: “Lembre-se que pode ter sido para seu bem!”.

Um dia o rei teve um acidente e perdeu um dedo. Ficou extremamente infeliz com a situação e foi ver o seu vizir, amigo de longa data, confiante de obter ajuda. Indignado e triste com o sucedido, o rei contou ao vizir o acidente que tivera. O vizir escutou-o com bondade, disse-lhe algumas palavras de conforto e por fim acrescentou, como de costume: “Majestade, lembre-se de que pode ter sido para seu bem.”

Essa era a última coisa que o rei queria ouvir. “O quê?! Depois de te ter contado o acidente de que fui vítima, tu ousas dizer-me uma coisa dessas? Estás a zombar de mim, ou perdeste o juízo?” E a sua fúria foi tão grande que mandou prender o vizir.

O tempo passou e alguns meses depois o rei foi a uma caçada com os criados. Durante a caçada, o grupo foi atacado por uma tribo de canibais que mataram os criados e capturaram o rei. Levaram-no para a aldeia e começaram a preparar o ritual de oferenda aos deuses. Quando a água do caldeirão já estava a ferver, trouxeram o rei. Ao prepará-lo para o sacrifício, descobriram que lhe faltava um dedo. Como não estava completo, não servia para o ritual e foi libertado.

A caminho do palácio, o rei não cabia em si de contente. “O meu amigo vizir é que tinha razão! Como é sábio e bondoso! Estou tão arrependido por tê-lo mandado prender! Que injustiça! Tenho de ir vê-lo e pedir-lhe perdão quanto antes.”

Logo que pôde o rei foi à prisão, entrou na cela do vizir, pegou-lhe nas mãos e disse-lhe efusivamente: “Meu bom amigo, sinto-me tão arrependido por te ter mandado prender! O meu acto é tão condenável! Não sei se alguma vez me perdoarás. Nem tu sabes como tinhas razão naquilo que me disseste!” E contou-lhe a história.

O vizir escutou-o com bondade e no final disse: “Majestade, não se atormente, talvez tudo tenha sido para meu bem!” O rei não queria acreditar nos seus ouvidos. “O quê?! Como é que depois de tudo o que passaste e da injustiça de que foste alvo ainda consegues achar que tenha sido para teu bem?” “Majestade, repare bem: se eu não estivesse preso, teria ido à caçada consigo!”

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Embora às vezes tenhamos a sensação de que não conseguimos escapar ao ego, a verdade é que a natureza de Buda está sempre por perto – ou não fosse ela a própria natureza do espírito quando não está poluído nem alterado. A dificuldade, ó balha-me Deus, é que ele está quase sempre poluído, alterado e tenso.

Todos os afazeres e preocupações que preenchem a nossa vida são uma fonte de constante tensão. Andamos quase sempre enredados em problemas, planificações, projetos, dilemas e conflitos. Os mestres tibetanos mais radicais resolviam o problema cortando pela raiz com tudo isso. Viviam como eremitas, em grutas, comiam o que lhes ofereciam e chegavam a extremos de austeridade a que nenhum de nós hoje conseguiria sobreviver. Invejo o espaço que imagino teriam nas suas mentes mas seria incapaz de pagar tal preço.

Para a maioria de nós a vida é uma interminável sucessão de tarefas e problemas para resolver. Mesmo os momentos de ócio – que tanto prezamos – dão um trabalhão a planear. Ir de férias é um stress e voltar é outro.

São tantas as preocupações que o nosso espírito vai ficando cada vez mais atulhado, cada vez mais cheio de lixo e de sentimentos obscuros e negativos. Frequentemente sentimo-nos ultrapassados, aprisionados e sem espaço para respirar. E, como se tivéssemos uma panela de pressão no peito, temos de abrir de tempo a tempo a válvula e deixar escapar um suspiro, para aliviar a pressão. Quando estamos nesse estado qualquer pequena coisa é uma contrariedade e torna-se impossível lidar com o mais ínfimo problema.

Nesses momentos é imperativo reencontrar o espaço. Pode fazê-lo à beira-mar, a beira-rio, ou no alto de uma montanha, num sítio de onde aviste um horizonte longínquo, Mas esse é apenas o espaço exterior que pouco efeito terá se não se despir interiormente. Melhor será usar a técnica que se segue.

Criar espaço dentro de nós é um método muito simples, uma técnica para reencontrarmos espaço e liberdade, aliviarmos a pressão causada pelas preocupações e libertarmos tensões físicas e mentais.

Se tiver alguns minutos olhe em frente e imagine que está rodeado por espaço vazio em todas as direções. Onde quer que esteja – mesmo que seja numa cave com luz artificial – imagine apenas que está rodeado por espaço. Não há paredes, limites, prédios, absolutamente nada que o limite. Imagine-se em alto mar ou numa planície que se estende até ao horizonte, sem qualquer obstáculo. Se as preocupações teimarem em querer reaparecer, lembre-se de que todas elas dizem respeito a coisas que são 99,9999% vazias (toda a matéria é essencialmente vazia) e concentre-se de novo sobre a sensação de espaço.

Deixe o seu espírito unir-se a esse espaço e ganhar vastidão e abertura. Se for mais fácil – e se estiver numa cave sem luz será certamente mais fácil – pode fechar os olhos. Imagine este espaço imenso durante um minuto ou dois e irá começar a sentir uma abertura e uma liberdade interiores. A pressão acumulada no peito dissipa-se e os pensamentos que se atropelavam dentro de si há instantes acalmam. À medida que o espírito se abre, a sua atitude muda sem esforço para algo mais luminoso e claro. São apenas necessários alguns instantes e pode fazê-lo em qualquer lado, a qualquer momento.

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Ouve-se cada vez mais falar de neurociências e das novas descobertas a nível dos efeitos quase milagrosos da meditação. Imagens de monges e lamas budistas (por exemplo, Matthieu Ricard e Mingyur Rinpoche) em meditação com as cabeças cobertas de censores já nos são familiares. A neuro plasticidade do cérebro e a possibilidade de alterar as conexões neuronais expressam-se no título de uma das conferências de Matthieu Ricard “Mude a mente, mude o cérebro”. Tudo isso é fascinante e tem confirmado os ensinamentos e as técnicas ancestrais do Budismo.
No entanto, enquanto todos continuam a extasiar-se com o cérebro, as mais recentes pesquisas científicas demonstram que a consciência não está apenas ligada ao cérebro mas surge da interação entre o cérebro e o resto do corpo.
Nas tradições espirituais mais antigas, o grande centro da consciência não era o cérebro mas sim o coração. Pensámos durante muito tempo que se tratava apenas de um sinal manifesto de ignorância e obscurantismo mas tal julgamento está a ser destronado. À luz de novas descobertas, os cientistas atuais começam a reconhecer que o coração está longe de ser apenas uma “bomba” de sangue.
Uma disciplina novinha em folha, a neurocardiologia, revela-nos que o coração é um sofisticado centro de receção e processamento de informação e possui mesmo um sistema nervoso próprio (já apelidado de “cérebro do coração”). O sistema nervoso cardíaco possui cerca de 40.000 neurónios e permite-lhe aprender, recordar e, mesmo, tomar decisões de forma independente do córtex cerebral.
Embora exista uma comunicação entre o cérebro e o coração que vai nos dois sentidos, os canais de comunicação levando informação do coração ao cérebro são em maior número do que os que veiculam informação no sentido inverso. Este facto pode explicar o enorme poder das emoções e justificar a expressão popular “o coração falou mais alto” quando o poder de uma emoção suplanta a razão.
O coração gera o maior e mais poderoso campo electromagnético do corpo que é sentido por cada célula. É cerca de 60 vezes maior e 5000 vezes mais poderoso do que o do cérebro e pode ser detetado a mais de metro e meio à volta do corpo.
De acordo com o HeartMath Institut, o campo eletromagnético do coração comunica ao corpo informações sobre o estado emocional da pessoa. Os padrões da batida do coração mudam, consoante as emoções sentidas: emoções negativas tais como cólera ou frustração provocam ritmos cardíacos incoerentes e, ao inverso, emoções positivais tais como o amor ou a gratidão, geram ritmos harmónicos, suaves e coerentes.
Quando as emoções positivas são sentidas de forma mais estável, produz-se então um modo de funcionamento distinto, que o HeartMath Institute chamou de “coerência psicofisiológica”. Este modo de funcionamento é caracterizado por uma interação mais harmoniosa e eficaz entre todos os sistemas fisiológicos e, a nível psicológico, por uma notável redução do pensamento discursivo e do stress, um maior equilíbrio emocional, maior claridade mental e mais intuição.
Várias experiências têm ainda revelado que o campo electromagnético do coração tem um papel importante na comunicação entre as pessoas a um nível inconsciente. As ondas cerebrais de um indivíduo podem sincronizar-se com o campo electromagnético do coração de outro, dando-lhe algum conhecimento intuitivo do seu estado emocional. Os indivíduos com ritmos cardíacos mais coerentes são mais capazes de se sincronizarem com os campos cardíacos alheios e são, por isso, muito mais sensíveis e capazes de “ler a mente dos outros” – o que é frequentemente apontado nos ensinamentos como sendo um poder específico dos mestres.
Assim, nem tudo está na cabeça meus amigos, pensemos com o coração!

Pode ver mais informação em: http://www.mindfulmuscleblog.com/heart-has-consciousness/  ou http://www.metaphysics-for-life.com/heart-intelligence.html ou ainda http://www.heartmath.org/

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Sou budista há quase quarenta anos, há portanto outros tantos que oiço falar do ego. Mas, apesar disso, só recentemente a necessidade de o desmascarar se tornou absolutamente cristalina para mim.

Não têm conta as vezes em que ouvi ensinamentos do Treino Mental (lodjong, em tibetano), tais como o Bodhicharyavattara, As oito estâncias do Treino mental ou as 37 práticas dos Bodhisattvas. Todos fazem muito sentido mas o ego aproxima-se deles com a maior das precauções, como se de nitroglicerina se tratasse. Não é caso para menos: do seu ponto de vista esses ensinamentos são letais.

Entender que que quem nos inferniza a vida não são os outros nem as circunstâncias mas sim o ego, é o ponto de partida para a prática budista. Temos de meter na cabeça que o inimigo é o ego, não os outros. Sem que esse ponto esteja assente – pelo menos intelectualmente – estamos em riscos de fazer do budismo uma nova imagem de marca da nossa identidade fictícia.

Mas, quando esse ponto fica assente, a nossa vida muda radicalmente. Seguindo a máxima que diz que os inimigos dos meus inimigos são meus amigos, tudo o que destrói o ego passa a estar do nosso lado. Obstáculos, problemas, circunstâncias adversas e doenças – os maiores pesadelos do ego – são aliados preciosos para quem está empenhado em levá-lo à ruina.

Podemos medir a clareza de motivação de um praticante espiritual – budista ou não – pela forma como enfrenta as dificuldades. Quanto mais claramente se distanciar do ego, quanto mais o tiver amestrado, mais será capaz de encarar com alegria aquilo de que os outros fogem a sete pés. É por isso que alguns seres excepcionais procuram deliberadamente situações difíceis e extremas como forma de acelerarem o processo. Trocam o conforto das suas casas pelo deserto ou pelas grutas, enfrentando o frio, a solidão, a fome e outras condições extremas, não por masoquismo, mas para acossarem o ego e lhe mostrarem claramente quem manda.

É importante entender que embora tais atitudes nos pareçam impossíveis neste momento, quando a nossa determinação se tiver desenvolvido, serão tão evidentes como o foram para eles. Para começar – e não é pequeno desafio – treinemo-nos com o que temos à mão e passemos a olhar para as dificuldades como oportunidades de ir degastando o ego.

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Os textos tradicionais dizem: todo o sofrimento deste mundo vem de acarinharmos o ego e toda a felicidade vem de acarinharmos os outros. Eu sei que soa um pouco “démodé”. É um tipo de discurso que não abre telejornais pela boa razão de que não é mote das reuniões da comissão europeia, nem parece ter nada a ver com a crise (embora tenha absolutamente tudo a ver).

Não sei se já realmente ponderou a questão. Se se aventurou para além do óbvio e da sensação difusa de estar perante um ensinamento espiritual, eventualmente “religioso” – coisas para as quais há cada vez menos tempo na nossa vida. “Sim, sim… dizemos nós. Claro! Mas eu não tenho tempo para isso. Não é aplicável à minha vida de todos os dias. Isso é bom para quem vive num mosteiro, rodeado de pessoas boas, longe de toda a rivalidade e torpeza do mundo de hoje.” E já se questionou sobre de onde vem a rivalidade e a torpeza do mundo de hoje? Onde nascem todas as reações e aberrações a que assistimos quotidianamente e que fazem deste mundo um sítio tão desconfortável? E sobretudo que, ao reagir da mesma forma ou pelo menos não reagir de forma diferente, está a pactuar com esse estado de coisas?

E para fazer aqui um parêntesis sobre o assunto que domina – esse sim – os telejornais, ouvia um comentador no outro dia dizer que se a Sra. Merkel e o Sr. Sarkozy tivessem liderado a união europeia de forma a não velarem apenas pelos seus interesses – que nem sequer são concomitantes com os interesses dos seus respectivos países! – a Europa não teria de enfrentar a crise que a coloca agora à beira da rutura. Que novidade! Que extraordinário insight!

Acredito que, se me está a ler, faz parte daquelas pessoas um pouco mais despertas que gostariam de fazer alguma coisa para tornar este planeta um mundo melhor. Às vezes pensamos que, para isso, temos de fazer algo “em grande”, salvar milhares de pessoas, encontrar a cura para a SIDA, ser bombeiro voluntário e que, não podendo fazer nada disso, só nos resta ficar quietos e seguir a manada, tentando sobreviver o melhor possível.

Não podia estar mais enganado. Pode fazer uma coisa realmente poderosa e revolucionária –parar de acarinhar o ego e começar a acarinhar os outros. Isso sim é ir contra a corrente! Pensa que oferecer o peito às balas é corajoso? Experimente despir-se dos invólucros que acha que o protegem dos “ataques” e do egoísmo alheios e aplique o método revolucionário de acarinhar os outros.

Eu sei que tem milhares de objeções. É por isso que é bom olhar para os que praticam esse método e ver que no se transformaram. Têm um ar miserável e infeliz? Parece que toda a gente se aproveita deles? Ou serão uma inspiração para a humanidade, um verdadeiro farol na noite escura da nossa confusão?

Medite nisto um bocadinho.

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A ideia defendida por Darwin que a evolução das espécies se baseia na competição e na rivalidade e que são os mais competitivos que sobrevivem tem os dias contados. Ainda que custe ao nosso ego admiti-lo – ele que aplaude a teoria com todas as mãos que tem (e que eu suponho serem 4 visto ser o asno que é) – a compaixão, a empatia e a cooperação são muito mais eficazes para a sobrevivência do que a competição.

A esse propósito lembro-me de uma história que me contaram e que remonta aos tempos da escravatura (será no Brasil?). Como muito frequentemente me acontece, os locais e os nomes apagaram-se mas ficou o teor da história.

Numa fazenda, um grupo de escravos pensou como poderia fazer para comprar a liberdade. Um deles, um homem com uma visão acima da de Darwin, sugeriu o seguinte:

Já que o preço da alforria era tão alto que quase nenhum escravo conseguia pagá-lo ainda que trabalhasse a vida inteira, ele sugeriu que todos trabalhassem para libertar um deles. Depois de ser um homem livre, esse iria trabalhar – ganhando mais do que os escravos – e o seu ganho, junto com o dos outros, permitiria libertar um segundo, bem mais depressa. O segundo a ser libertado faria o mesmo, e por aí fora. O plano foi posto em prática e todos eles conseguiram a alforria. Trabalhando cada um para si, nenhum teria conseguido.

O que acho engraçado, agora que à luz de recentes descobertas se tem vindo a concluir que o altruísmo é uma emoção inata e universal tão profundamente enraizada e tão antiga como o medo ou a cólera, é que tenha sido preciso esperar por máquinas sofisticadas que perscrutam as reações subtis do nosso cérebro para finalmente aceitarmos o que um simples escravo, certamente sem qualquer instrução, pôde descobrir sozinho.

Será preciso ser António Damásio a dizer que “a compaixão mobiliza as camadas mais profundas do cérebro à semelhança de outras emoções tão básicas como o medo”, contrariando a ideia acalentada pelos egos de que se trata de “um artefacto cultural”?

Se for preciso, então que seja. Porque tanto a mera observação como agora a própria ciência reconhecem que a ideia de que o egoísmo, a ambição e a competição forjam o âmago do ser humano e constituem o motor da evolução humana já foi. O pior é que tem sido esse o pressuposto que tem orientado negócios, política, sociedade e cultura, o tal que nos levou  à beira da rutura. Será que ninguém vê?

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